Busca
"Construindo um mundo melhor para nossas crianças."
Notícias
Centro de Recursos
Conheça todo material informativo que a Visão já disponibilizou.
Novo BLOG da Visão
Mais uma ferramenta para você acompanhar o trabalho da Visão Mundial.
Relatório Anual 2007
Faça o download do nosso relatório.
Notícias
Últimas notícias
Crise...de alimentos?

Toda vez que o sistema, o modelo de desenvolvimento passa por crises que colocam em cheque sua sustentabilidade, aciona seus mecanismos de defesa, para tentar uma sobrevida. Sobrevida sim, pois todos sabemos que o modelo está exaurido. Não consegue mais se sustentar e, desde a década de 70 vem sobrevivendo às custas do sacrifício extremo de grandes massas de miseráveis, materializado em guerras e na fome. (Pois o modelo atingiu sua capacidade máxima. O pleno desenvolvimento das forças produtivas que conseguem superar a demanda/consumo.)

E, para se manter ativo, utiliza-se de artifícios, tão espúrios quanto o próprio modelo de desenvolvimento. De manobras menos evidentes, como o subsídio à agricultura dos países ricos, até articulações mais visíveis como fusão de grandes corporações, damping e até mesmo a promoção de guerras sem motivos plausíveis que as justifiquem, pelo menos, aparentemente.  Como o episódio do Iraque, por exemplo, que sob a justificativa de combater a produção de armas químicas - acusação até hoje não comprovada -, teve seu território invadido por tropas norte-americanas e seu presidente (ditador) julgado e enforcado em cadeia internacional de televisão.  E mesmo assim, continua sendo violentado em sua soberania pelos Estados Unidos que ainda gastam milhões de dólares para a manutenção de tropas no Iraque, sem muita explicação. (Qualquer desculpa vale para fazer circular o capital. Única forma de manter vivo o modelo. E a indústria bélica é uma excelente alternativa.)

Tudo vale na luta pela sobrevivência do sistema e garantia da prorrogação dos privilégios de uma minoria indigna às custas da fome, da miséria e do desespero de milhões que padecem humilhados, sem dignidade, sem a menor condição de reagir. Típica situação que o Código Civil Brasileiro classificaria de crime triplamente qualificado:  motivo torpe (apenas para satisfazer a luxúria e o desperdício de uma minoria); com emprego de requintes de violência e crueldade (milhões morrendo, de forma desumana) e sem chance de defesa da vítima (pois a condição de miséria é tão extrema que tira qualquer possibilidade de reação dessas populações).

A parcela da população mundial que compõe os que sobrevivem com menos de um dólar por dia, os que estão abaixo da linha de pobreza, sempre passou necessidades, carências, inclusive fome e desnutrição. No entanto, nunca houve uma preocupação que mobilizasse meios de comunicação, governos e a população mais economicamente estabilizada, em caráter mundial, para garantir que essa parcela da população tivesse acesso à alimentação adequada. Salvo quando essa mobilização se faz necessária para reforçar o modelo de desenvolvimento vigente, como foi o caso da "revolução verde".

Não é estranho que, exatamente agora, num cenário mundial onde o barril de petróleo bate recordes de alta de preço, com os subsídios agrícolas dos países ricos sendo duramente questionados e com a ascensão da bioenergia, como alternativa de substituição ao petróleo, essas reações estejam aparecendo tão fortemente? 

Ora, se essa grande parcela que sobrevive na miséria (com menos de um dólar por dia) não possui poder de compra e sobrevive do que sobra de quem tem poder de compra, em tese, não seria a primeira afetada pela elevação dos preços dos alimentos. Já a classe média, ao contrário, para manter o padrão de consumo alimentar a que está acostumada, precisa cortar gastos em alguma outra área. Assim, na verdade, quem está fazendo todo esse barulho, assustada com a alta do preço dos alimentos, somos nós da classe média. Movidos pelo pavor de abrirmos mão de certos privilégios ou de voltarmos a ser pobres, utilizamos a falsa bandeira da defesa do direito dos famintos, de forma hipócrita e vergonhosa, para esconder nosso próprio medo de ter que abrir mão de certas regalias por conta da elevação dos preços dos alimentos.

E, de quebra, com essa reação equivocada, ainda damos sustentação à estratégia e ao discurso de perpetuação dos privilégios da minoria que se beneficia com o atual modelo de desenvolvimento. Que aproveita o ensejo para responsabilizar exclusivamente a bioenergia pela alta dos preços dos alimentos. Quando todos sabemos que na alta dos preços do petróleo e, principalmente nos subsídios agrícolas dos países ricos residem as verdadeiras causas deste desequilíbrio inflacionário do setor alimentício.

Responsabilizar a bionergia pela elevação dos preços de alimentos é uma estratégia para justificar o modelo de desenvolvimento vigente que elegeu o petróleo como a principal fonte de energia e a partir dessa lógica estruturou toda a sua matriz produtiva e tecnológica. Dessa forma, dá uma sobrevida ao atual modelo econômico que está baseado na utilização, até o esgotamento, de recursos naturais não renováveis, às custas da miséria de tantos e enriquecimento e concentração de poder nas mãos de uns poucos.

A decisão de não sairmos de nossa zona de conforto faz-nos acreditar em versões equivocadas, nitidamente tendenciosas sobre a dita "crise de alimentos". Assim, de maneira hipócrita, optamos por acreditar e até reforçar a linha de pensamento do poder econômico estabelecido, a ter que enfrentar as estruturas que mantêm de pé o modelo de desenvolvimento que nós dizemos combater.

É preciso que tenhamos coragem de enfrentar as causas que sustentam esse modelo injusto. Não bastam ações paliativas, que mais contribuem para desencargo de consciência e para manter tudo como está. Pois, quando atuamos apenas paliativamente, estamos contribuindo para que as populações afetadas pelas conseqüências do modelo de desenvolvimento não façam "barulho", enquanto a estrutura permanece servindo e alimentando o modelo que é a  grande causa da conseqüência que a nossa ação paliativa ajuda a amenizar.

É preciso fazer o paliativo sim, para evitar a catástrofe, porém, associado a ele, temos que implementar ações que combatam as estruturas de sustentação do modelo gerador das catástrofes sociais. A não ser que já façamos parte do círculo vicioso: o modelo de desenvolvimento gera as conseqüências. Nossa ação paliativa ameniza essas conseqüências, e nós garantimos os nossos empregos de técnicos sociais, e ainda nos autodenominamos portadores da esperança para as vítimas desse mesmo modelo de desenvolvimento que, contraditoriamente, ajudamos a manter com nossas ações, mesmo que com o discurso externemos com tanta força combater.

 

Júlio Dias

Assessor Programático para Educação Financeira

Visão Mundial

 
Rua da Concórdia, 677 - São José
Recife / Pernambuco
CEP 50020-050 Tel: (81) 3081 5600
Apadrinhe Já! Diante do Trono Inglês Canadá África do Sul